sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Os medos que não são de Chapeuzinho Amarelo.

Para todas as meninas/mulheres que cresceram com medo do "lobo"

O medo que sinto aqui dentro e que expresso na insegurança do olhar, nas palavras incertas, na angústia de encarar a rua deserta, é reflexo de outros medos guardados, silenciados, trancados a sete chaves no baú das memórias. É o medo agigantado no corpo encolhido, ainda pueril, da menina escondida no escuro do quarto, contra a porta do banheiro ou nas árvores do terreiro.
Medo medoso, um medo contínuo, maior que aquele de Chapeuzinho Amarelo, "medo do medo do medo de algum dia encontrar um lobo". Quando criança, esse medo não é nada bobo, pois a cada 15 minutos, no Brasil, tem mais uma vítima de algum "lobo".
Então a gente cresce, acreditando que vai se livrar do medo, mas o medo cresce com a gente, se agiganta, sufoca, um medo das lembranças do "lobo", que nos visita em noite de pesadelo, nos tira o sono, nos arranca soluços e se espalha nas lágrimas que molham nosso travesseiro.
Mas além desse medo, que a gente não perde nem vira arremedo, quando a gente cresce temos outros medos, não inventados. Medo, não de trovão, de minhoca, de engasgar, de se sujar, de cair, mas medo de ir pra fora, de voltar da escola, de vestir mini saia, de sair sozinha. Medos frutos de outro "medo mais que medonho", que é o medo de encontrar outros "lobos", que não existem só lá "do outro lado da montanha, num buraco da Alemanha, cheio de teia de aranha", mas por toda parte.
Eu, que cresci com medo das lembranças do "lobo", hoje ando sempre sobressaltada, atenta, angustiada, com um medo nada engraçado, de encontrar um "lobo" malvado escondido nas esquinas, nas vielas, nas paradas de ônibus, no metrô. Também tenho um medo guardado dos "lobos" que estão nos lares, nas escolas e nas igrejas, aqueles de sorriso faceiro, vestindo pele de cordeiro.
PS.: Algumas frases foram tiradas do livro Chapeuzinho Amarelo de Chico Buarque, com o qual há um jogo de intertextualidade.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Viver tem sido insuportavelmente doloroso e desesperador. A sensação de que tudo está fora do lugar (principalmente eu) é tão contínua, que me sufoca.

A vida tem sido um fardo pesado que eu já não tenho tido mais forças para carregar. 

Quero parar, preciso parar, mas estou tão cansada de tentativas frustradas, que já não tenho ânimo nem de tentar.



Enquanto isso, me apego desesperadamente aos livros, torcendo para que as histórias tenham o poder de me fazer esquecer da obrigação de viver.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Doação

Quando a Doação (de tempo, carinho, atenção, escuta, amor, calor) se transforma em DOR na Ação e depois DOR no Coração, é hora de repensar se está valendo a pena.

domingo, 29 de outubro de 2017

...

Quando a vida já não faz mais nenhum sentido, nos restam duas alternativas:

A coragem de colocar um ponto final na vida

ou

A covardia de fingir que está tudo bem.

Neste momento estou à um passo da coragem, mas, infelizmente, ainda presa à covardia.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

...

Ando tão perdida que já nem consigo transformar em poesia,
 essa dor desaforada que se alojou no meu peito,
 fez crescer a solidão e encheu de desassossego
 o meu pobre coração, já cansado de viver.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Flor de Cactus (Érica)


Entre espinhos e sequidão, ela floresce.
Linda e resistente essa flor de cactus.
Assim sem mais, ao sol do meio dia, ela aparece.
Delicada e persistente, essa flor amarela
que ao abrir-se transforma a paisagem
que contemplo da minha janela,

solitária, pensando  nela.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Sou sua


Tantas vezes me entreguei


Quantas vezes me pertenci?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Hoje eu quero descansar (Érica)

Estou cansada, muito cansada desse mundo injusto. E você?
Hoje eu quero descansar... pelo menos hoje não quero saber do que tramam no Congresso. Por favor, eu lhe peço, não me venha contar do mais novo retrocesso, do último Direito ultrajado por esse desgoverno; dos cortes na Educação; do Escola sem partido; das verbas desviadas da Saúde; da ração do Dória; das propinas pagas pela Odebrecht; dos políticos comprados pela JBS; do Senado corrupto que salvou o Aécio. Não, hoje eu não quero lembrar da Democracia ultrajada e do Golpe dado contra nossa Nação. Pelo menos hoje, não! Eu preciso descansar...

Hoje eu quero sorrir, prometo que não vou me importar com os comentários lesbofóbicos quando eu passar, com o assédio na rua ou com a sociedade machista a me definir. Não venha insistir, porque eu não vou ler os posts racistas na minha timeline. Não vou me atormentar pelo assédio moral ou pelas ameaças que sofro por ser mulher e defender o que acredito. Pelo menos hoje, não vou me importar com as críticas sobre o meu feminismo. Sinto muito, mas eu preciso descansar...

Hoje eu quero respirar, não quero sofrer com tantos feminicídios, com menina abusada, violada, morta; com menino ”suspeito", que pela cor de sua pele ganhou um tiro no peito. Não quero pensar na juventude negra exterminada; na criança abandonada, nem naquela atropelada no lixão da Estrutural. Não quero me angustiar pelos conflitos armados na Rocinha e Vidigal; pelos barracos derrubados em São Sebastião, nem pela fome que volta a atingir as famílias do Sertão. Por favor, não! Eu preciso descansar...

Hoje eu não quero chorar, por favor, não venha me contar dos suicídios pós exposição nas redes sociais, nem dos estupros coletivos e/ou corretivos. Não quero saber do Bolsonaro, seu discurso homofóbico e seus seguidores reacionários. Também não quero assistir ao choro de quem teve o seu Terreiro destruído, seus santos quebrados, sua religião ultrajada pela intolerância. Sei que é estranho, mas eu preciso descansar...

Hoje eu quero esquecer a crise humanitária. Fingir que a Somália não está destruída; que o povo Rohingya pode viver livremente em seu território; que não há conflitos na Síria; que meus irmãos mexicanos não foram soterrados por nenhum terremoto e que os cubanos, haitianos, portoriquenhos não foram atingidos por nenhum furacão. Não, eu não estou louca, eu só preciso descansar...

Hoje eu quero ler Leminski e Arnaldo Antunes, escutar Chico Buarque e Marisa Monte, cantar La vie en rose, ouvir Palavra Cantada e Bia Bedran, redescobrir com Diane Valdez "O que é que tem na trouxa de Maria". Hoje eu quero voltar a ser criança, jogar amarelinha, tomar banho no riacho, soltar pipa na rua, brincar de salva-bandeira e andar de rolemã.
Na verdade, o que eu quero hoje é paz, não vou ler os jornais nem ouvir as notícias da rádio/tv. Estou cansada, muito cansada desse mundo injusto. E você?

domingo, 15 de outubro de 2017

Paixão (Érica)

Não gosto de sofrer por amor ou por amizade, prefiro sofrer de paixão.

Esse sentimento-fogo, que chega fazendo a gente endoidecer,
ardendo o corpo de desejo até se consumir em prazer.

Não gosto de sofrer por amor ou por amizade, prefiro sofrer de paixão.

Esse sentimento-rio, que depois de vivido se (es)vai de verdade,
sem deixar marcas de dor ou rastros de saudade.