segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O dom de amar


La Liseuse de Jean-Jacques Henner.

Amo literatura! Consigo emocionar-me com as palavras de outrem, envolver-me com a poesia melodiosa de Florbela, encantar-me com a narração poética e surpreendente de Guimarães Rosa, fascinar-me com a linguagem ousada de Nélida Piñon, indignar-me com a injustiça lendo Galeano, encontrar-me ao degustar Pessoa, perder-me com Clarice Lispector, questionar e questionar-me com Sartre e Beauvoir, renovar-me com Quintana, enfim não resisto a uma boa obra literária.

Contudo, para mim, escrever sempre foi muito difícil. Cada palavra que escrevo parece que sai de dentro de mim arranhando-me a alma, como espinhos arranhando a pele mais sensível. Acho que escrever é dom, assim como é dom pintar, desenhar, cantar, representar, cozinhar, ensinar...

O dom é uma dádiva com a qual nem todos os mortais são agraciados. Eu não tenho o dom de escrever, aliás, não tenho nenhum dos dons que acabo de citar. Isso me intriga... Será que tenho algum dom? Gosto muito de contar histórias, mas isso não chega a ser um dom, é apenas uma maneira de viver melhor comigo mesma. Adoro ajudar ao próximo, mas não vejo isso como um dom, é antes uma obrigação de cada ser humano que acredita na construção de um mundo melhor.

Não, não consigo encontrar nada de tão especial em mim que possa aproximar-se de um “dom”. Quando eu frequentava uma determinada religião, as pessoas diziam que eu tinha o “dom da palavra”, mas eu nunca concordei muito, até porque, como eu já disse, as palavras saem de dentro de mim um tanto quanto afiadas, principalmente porque costumo dizer o que penso.

Admiro quem tem o dom de “acordar palavras” como diz Roseana  Murray, pois estes conseguem alcançar corações, transformar vidas, despertar adormecidos, libertar presos, enfim conseguem fazer os seres mais humanos. Mas pensando bem, acho que existe um dom que precede ao dom da palavra e sem o qual este tampouco existiria, falo do dom de amar, pois sem amor, as palavras não se transformariam em poesias, não cantariam a dor, não gritariam contra a maldade.

É!!... pensando bem, eu tenho um dom... Eu amo sem medida e é o amor que tenho dentro de mim que me inspira a continuar vivendo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

DIA MUNDIAL PELA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO

Hoje, 28 de Setembro é um Dia de luta pela descriminalização do aborto e eu não poderia ficar fora dessa luta!!!!

Educação Sexual para decidir; contraceptivos para não abortar; aborto legal para não morrer!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Estrela intocável (Érica)



Já faz alguns dias que meu coração insiste em buscar-te...

Primeiro quis encontrar teus olhos no verde claro das folhagens do jardim.

Depois quis sentir o cheiro da tua pele dourada no aroma exótico da canela.

Na noite passada buscou desvendar teu mistério na lua cheia, que poderosa dominava o céu do cerrado.

No espetáculo único de um Ipê florido sob os primeiros raios da manhã, quis vislumbrar tua beleza.

Na alegria incontida das crianças que brincavam no parque, quis rever o teu sorriso.

No som dos pássaros que se encontravam para festejar o cair da tarde, quis ouvir tua doce voz.

A razão ordena ao meu coração que te esqueça, mas tal um menino atrevido e desobediente,
 ele insiste em buscar-te,

mesmo sabendo que alcançar-te é tão impossível quanto tocar uma estrela no céu.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

Reencontrando os fantasmas (Érica)


Encontro-me na minha terra natal de onde saí com oito anos de idade e onde volto somente em raras ocasiões: velórios, aniversários, casamentos. Ocasiões em que estou sempre rodeada por muita gente e, por isso, não tenho tempo de pensar em nada. Dessa vez é diferente, vim por alguns dias, sem nada especial para fazer, então posso andar pelas ruas sem direção ou propósitos específicos. O que é interessante, quando se está acostumada a uma vida corrida e programada. O que não imaginei foi que durante essas caminhadas eu pudesse reencontrar lugares que me fizessem voltar ao tempo e relembrar coisas desses oito anos, as quais eu acreditava estarem apagadas de minha memória.

O primeiro lugar que visitei foi o bairro onde morei até os cinco anos de idade. Tive dificuldades para encontrar “minha” rua e foi inútil buscar pela casa velha de grandes janelas de madeira e mangueira no quintal. Ela não existe mais. Contudo, em minutos, vejo-me diante do velho casarão, brincando de roleman, empurrando ou sendo empurrada por outras crianças. O asfalto desaparece e vejo a larga rua avermelhada, com pequenas piscinas formadas pela chuva onde nos divertíamos felizes, mesmo sabendo que as surras seriam inevitáveis.

Do outro lado da rua, vejo o casebre de Dona Julia, cujo nome me soava como uma canção de ninar. Uma senhora de cabelos brancos, sorriso no rosto e que sempre me protegia dos severos castigos que minha mãe me impunha. Também vejo a venda de Seu Otávio, um senhor branco e barrigudo, detentor das guloseimas proibidas – diziam que eu era diabética – e da pitangueira de frutos avermelhados com os quais ele agraciava-me, compensando a falta dos doces.

Continuo caminhando e chego ao lago da cidade, rodeado por uma pista de caminhada, uma pequena praia, alguns quiosques e muita gente. Mas a lembrança que tenho é do corregozinho, em cujas águas banhávamos escondidos e sobre o qual existia uma estreita ponte de madeira, que servia de passagem entre o bairro onde vivíamos e a casa de minha avó. Pontezinha que marcou minha vida, por ter sido o lugar onde pela primeira vez senti a presença da morte, quando minha mãe tomada de fúria, por pouco não me lançou córrego abaixo, sendo eu “salva” por minha madrinha, que na ocasião também curou as feridas do meu corpo.

Também visito o bairro onde passei a viver depois da partida de minha mãe. A casa onde habitava com minha avó, tias e primos, deu lugar a um sobrado que abriga uma fármacia e outros comércios. A igreja, a qual eu costumava frequentar, continua do outro lado da rua. Moderna, já não guarda na torre o auto-falante que aos domingos me despertava anunciando o início da escola bíblica.

O lugar está diferente, mas consigo reorganizar o espaço imaginário e vejo o pequeno alpendre com pilares detrás dos quais nos escondíamos expondo caretas, com velas acesas, feitas dos mamões verdes que tinham em abundância no quintal da casa, os quais também serviam, muitas vezes, como o único acompanhamento para o arroz branco. Vislumbro a imagem de minha querida avó, fazendo sabão, pensando no que ia servir de almoço para os netos, preocupada com a tia “possuída” que vivia presa no pequeno corredor. Fecho os olhos e vejo a roda de crianças brincando de passar anel em frente à casa assombrada da esquina.

O barulho dos carros me chama de volta à realidade e, sem querer, meus olhos se detêm sobre uma casa da rua ao lado. É a casa de minha melhor amiga, meu primeiro amor, com a qual troquei as primeiras carícias. Lembro-me dos olhos castanhos, dos cabelos lisos escorrendo pela face, do sorriso infantil mostrando a troca de dentes. Tais lembranças me causam um arrepio e me dou conta de como éramos precoces. A curiosidade me instiga e caminho em direção àquela casa. Reconheço que ali ainda habita sua família, quero tocar a campainha, perguntar por ela, mas me falta coragem. Imagino-a então, não sei por que, com marido e filhos, vivendo a vida que outrora vivera sua mãe. Será que ela ainda se lembra se mim? Como saber...

Quis rever minha escola, caminho em direção a ela, acompanhada por uma menina de cabelos cacheados e dourados, de pasta marrom nas costas, pedalando sua caloi. O caminho, outrora tão longo se fez curto. A escola grande, com seu pátio enorme que servia para as corridas no saco ou ovo na colher, não passa hoje de uma minúscula escola, com um pequeno pátio cimentado cercado por um muro alto de portão pequeno trancado com cadeado. Parada em frente a esse portão busco as lembranças desse lugar, mas elas são escassas. Não me lembro da professora, acho que ela não foi boa ou má o suficiente para me marcar. Recordo-me somente que sentava na primeira carteira da última fila, perto da parede de onde ouvia os colegas chamando-me de ‘quatro olho’.

Continuo caminhando pela cidade e tenho, às vezes, a impressão de reconhecer alguns rostos; ouço sons e sinto cheiros que me parecem familiares. Em alguns lugares, encontro aquela menina de outros versos, correndo, colocando barquinhos de papel na enxurrada ou brincando de roda. Mas se olho bem, a cidade mudou e as pessoas também. Algumas se foram, deixando lembranças e saudades, outras ficaram para sempre no esquecimento. Eu cresci, sobrevivi, mudei e perdi a inocência, porém percebo que a menina triste, que reencontrei nos lugares por onde andei, sempre me acompanhará e que é ela quem me faz capaz de amar e perdoar

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Selinho

Recebi este lindo selo do blog Tudo que preciso.
Agradeço de coração o reconhecimento. Muito obrigada Glau

Regras:

1- Você poderá postar o selinho no seu blog, para que todos que passarem por lá vejam o quanto seu blog é show.
2- Indicar 5 blogs que você acha que é um show.
3- Notificar ao blog.

 Minhas indicações:

http://meninos-cor-de-rosa.blogspot.com/
http://naparededoquarto.blogspot.com/

http://lugarzito.blogspot.com/

http://lerdetudo.blogspot.com/

http://thepastimeloveme.blogspot.com/

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desencontros (Érica)

Na vida temos encontros e desencontros...
mas o que fazer quando durante o encontro os desencontros se impõem?
Você insiste em ignorar meu olhar
Que lhe implora um pouco de atenção

Você insiste em calar meu desejo
Que continua gritando com paixão

Você vai destruindo meus sonhos
Que eu teimo alimentar em vão

Você vai matando o amor
Que eu lhe tenho no coração.

sábado, 16 de julho de 2011

Em busca da Felicidade

Outro dia visitei um blog muito bonito " Em busca da Felicidade " cujo título inspirou-me a escrever esse post.

http://fabrineceo6.blogspot.com/


Desde criança quando me perguntavam qual era o meu maior sonho, eu sempre respondia: “Ser feliz”. Sempre sonhei e continuo sonhando em ser feliz. Não há nada que eu tenha buscado mais, em toda minha vida, que a felicidade.

Nesse exato momento estou a perguntar-me: “Felicidade existe? Se ela existe porque não a encontrei ainda? Ou será que a encontrei e não me dei conta?” Essas indagações me inquietam e me fazem buscar em minha memória algo que vislumbre o que eu concebo como felicidade. E o que eu encontro nesse baú de lembranças, nesse emaranhado de experiências que a vida me proporcionou? Vamos ver...

Volto aos cinco, seis, sete, oito anos... o que vejo? Uma menina triste, calada, retraída, maltratada, abusada... uma menina que desperta no meio da noite e se encontra sozinha em casa, na companhia de outras duas irmãs menores que ela... uma menina que sobe no pé de manga e aí passa o dia para não ser espancada, uma menina de joelhos sobre pedrinhas debaixo de um sol escaldante durante horas, uma menina que serve de objeto para o desejo perverso de um adulto...

No meio de todas essas lembranças não consigo vislumbrar a felicidade, acho até mesmo que ela, se existe passou longe, muito longe de mim naquela época... Mas insisto com o passado, tento driblar essas lembranças ruins e encontro outra menina que agora sorri quando joga bola na rua, solta pipa, anda de bicicleta, vai à escola, abraça seu pai que chega das longas viagens a trabalho, deita no colo de sua avó... Será que nesses momentos eu fui feliz?

Continuo vasculhando o baú de minha vida e encontro uma adolescente tímida, mas contestadora, que adora estudar, ir à igreja, cantar, sonhar acordada e namorar... uma adolescente que teve que sair de casa aos 14 anos, se virar, ser adulta antes do tempo; uma adolescente que de repente se viu apaixonada por sua melhor amiga e que por esse motivo teve que enfrentar o preconceito e contestar suas próprias crenças e convicções... Fui feliz nesse período, apesar de todo sofrimento?

O baú continua aberto e me vejo aos dezenove estudando e trabalhando como louca para sobreviver; aos vinte e dois anos, terminando a faculdade; aos vinte e cinco deixando para trás minha família para ir em busca de outros sonhos, em outro país; aos vinte e nove regressando para recomeçar.... Fui feliz nesses momentos? Sou feliz hoje, depois de ter vivido tudo o que vivi? Não sei, não sei se fui feliz. Não sei se sou feliz, mas acho que não.

Creio que ao desejar tanto a felicidade, eu idealizei um tipo de felicidade que não existe. Alguém me disse certa vez que a felicidade não É algo contínuo, que ninguém é feliz, que estamos ou não estamos felizes. É só uma questão de estado. Se isso for verdade, preciso convencer-me a parar de sonhar em ser feliz. Mais que isso, devo convencer-me de que apesar de todo sofrimento que a vida me destinou, eu já estive feliz e, em determinados momentos, até extremamente feliz...

Fui feliz no meu primeiro dia de escola, quando aprendi a andar de bicicleta, quando dei meu primeiro beijo, quando me apaixonei pela primeira vez... fui feliz quando nasceram meus sobrinhos e minha sobrinha, quando passeava à margem de La Seine ou nas pequenas ruas de Paris... fui feliz durante a leitura de livros que me marcaram, ao ouvir meus cantores preferidos, diante das telas de grandes artistas. Fui feliz quando ensinei outros a enxergarem a vida de outra forma e a perceberem que o mundo era deles também, quando fiz pessoas sorrirem ou chorarem com minhas histórias, quando abracei minha família depois de anos de ausência... Enfim,  fui feliz, extremamente feliz nos braços de todas as mulheres que eu amei, independente se elas me amaram... Ainda essa semana a vida me agraciou com momentos inesquecíveis durante os quais eu fui infinitamente feliz...

Contudo, continuo e continuarei sempre em busca da felicidade, talvez não de uma felicidade milagrosa e duradoura, mas de pequenos momentos felizes que como raios de sol brilhem e iluminem a minha vida, afastando a escuridão e a tristeza...

Érica

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A espera (Érica)

Escrevi esse poema há algum tempo, mas ele expressa hoje tudo o que estou sentindo...


 Salvador DALÌ
 Ma femme nue regardant son corps

Queria sentir o teu cheiro
Queria perder-me entre teus seios
Queria beijar teu corpo inteiro
Queria encontrar-te em devaneios

Sentir teu alento e respiração
Sugar dos teus lábios a essência da vida
Dedicar-te toda minha inspiração
Protelando em desespero a despedida

Queria adormecer em teus abraços
No enlaço de teus braços despertar queria
Vazia minha cama está porém
Esperando que regresses...e não vens!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Indignação diante do veto presidencial ao material educativo de combate à homofobia no Brasil



CARTA ABERTA DO SER-TÃO

NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM GÊNERO E SEXUALIDADE

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

 
Em fins de 2010, divulgamos o relatório da pesquisa “Políticas públicas para a população LGBT no Brasil: um mapeamento crítico preliminar”, disponível em www.sertao.ufg.br. Dentre outros resultados, o relatório apontava para uma triste constatação no que diz respeito à cidadania e aos direitos humanos da população LGBT: nunca se avançou tanto e o que se tem hoje é praticamente nada. O relatório também sinalizava que as políticas públicas para este segmento ainda eram muito frágeis e pouco institucionalizadas, tendo em vista a) a ausência de respaldo jurídico que assegurasse sua existência como políticas de Estado, livres das incertezas decorrentes das mudanças na conjuntura política, da homofobia institucional e das pressões de grupos religiosos fundamentalistas; b) as dificuldades de implantação de modelo de gestão que viabilizasse a atuação conjunta, transversal e intersetorial, de órgãos dos governos federal, estaduais e municipais, contando com a parceria de grupos organizados da sociedade civil; c) a carência de previsão orçamentária específica, materializada no Plano Plurianual (PPA), na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e na Lei Orçamentária Anual (LOA); e d) o reduzido número de servidores públicos especializados, integrantes do quadro permanente de técnicos dos governos, responsáveis por sua formulação, implementação, monitoramento e avaliação.



Em 2008, foi realizada a 1ª Conferência Nacional LGBT, em Brasília, convocada por decreto presidencial, que contou com a participação de representantes dos poderes públicos e da sociedade civil, oriundos de todos os 26 estados do país e do Distrito Federal. A partir das resoluções aprovadas nesta Conferência, foi produzido o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos LGBT, lançado em 2009. Uma das ações contempladas neste Plano era “criar um projeto de cooperação público-governamental de extensão nas escolas públicas, utilizando produções artístico-culturais com temática de sexualidade, diversidade sexual e identidade de gênero, com recorte de raça e etnia, como forma de educar para a cidadania e inclusão” (Ação 1.2.2). Por outro lado, no Documento Final da Conferência Nacional de Educação, realizada em 2010, consta, entre as inúmeras propostas aprovadas na plenária final relativas à população LGBT, a seguinte: “Garantir que o MEC assegure, por meio de criação de rubrica financeira, os recursos necessários para a implementação do Projeto Escola sem Homofobia em toda a rede de ensino e das políticas públicas de educação, presentes no Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, lançado em maio de 2009” (p. 145, grifamos).



Qual não foi nossa surpresa, então, quando em 25 de maio de 2011 a presidente Dilma Roussef decidiu vetar a divulgação dos materiais que estavam sendo produzidos no contexto do referido Projeto Escola sem Homofobia, após um encontro com parlamentares conservadores vinculados a grupos religiosos. Para expressar nossa indignação diante das graves implicações decorrentes da decisão insensata de nossa presidente, nós, pesquisadoras e pesquisadores do Ser-Tão, resolvemos divulgar a presente carta. É imperativo que seja garantida a laicidade do Estado e a cidadania de todos os grupos discriminados, como solenemente destacado nos votos dos dez ministros do Supremo Tribunal Federal que, em 5 de maio, reconheceram, por unanimidade, a igualdade jurídica em direitos e obrigações entre casais de pessoas do mesmo sexo e de sexos diferentes.



Não é demais lembrar que a produção acadêmica brasileira e internacional demonstra amplamente, há décadas, que o processo sócio-cultural de produção e reprodução das desigualdades étnicas, raciais, etárias, de classe, de gênero, de sexualidade, sem mencionar as desigualdades regionais, passa pela tentativa de sua naturalização. Uma série de preconceitos a respeito da diversidade sexual, de relações de gênero e étnico-raciais, dentre outros, está fundada em ideologias que buscam justificar desigualdades sócio-culturais baseando-se em supostas diferenças biológicas, orgânicas, inatas. É preciso que se combatam os discursos daqueles e daquelas que, reivindicando de maneira totalitária uma suposta liberdade para a expressão pública de preconceitos, nada mais fazem do que tentar impedir que o debate público em torno do combate à homofobia e garantia dos direitos humanos de pessoas LGBT seja realizado de maneira produtiva e sensata.



Enquanto as políticas públicas no Brasil não forem formuladas e implementadas respeitando-se a laicidade do Estado, continuarão a ser inócuas, crônicas de mortes anunciadas, pois, como disseram muitos sujeitos da pesquisa mencionada no início desta carta, “papel aceita tudo”. Um dos lemas do nascente Movimento LGBT (então chamado de Movimento Homossexual) no Brasil do final dos anos 1970 era “mais amor e mais tesão”. Parafraseando, sugerimos uma nova palavra de ordem, para evitar um retrocesso de décadas na luta pela garantia dos direitos humanos da população LGBT no Brasil: “pela laicidade e mais ação!”. Jamais renunciemos, porém, ao amor e ao tesão.

Fonte: http://www.sertao.ufg.br/