segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O dom de amar


La Liseuse de Jean-Jacques Henner.

Amo literatura! Consigo emocionar-me com as palavras de outrem, envolver-me com a poesia melodiosa de Florbela, encantar-me com a narração poética e surpreendente de Guimarães Rosa, fascinar-me com a linguagem ousada de Nélida Piñon, indignar-me com a injustiça lendo Galeano, encontrar-me ao degustar Pessoa, perder-me com Clarice Lispector, questionar e questionar-me com Sartre e Beauvoir, renovar-me com Quintana, enfim não resisto a uma boa obra literária.

Contudo, para mim, escrever sempre foi muito difícil. Cada palavra que escrevo parece que sai de dentro de mim arranhando-me a alma, como espinhos arranhando a pele mais sensível. Acho que escrever é dom, assim como é dom pintar, desenhar, cantar, representar, cozinhar, ensinar...

O dom é uma dádiva com a qual nem todos os mortais são agraciados. Eu não tenho o dom de escrever, aliás, não tenho nenhum dos dons que acabo de citar. Isso me intriga... Será que tenho algum dom? Gosto muito de contar histórias, mas isso não chega a ser um dom, é apenas uma maneira de viver melhor comigo mesma. Adoro ajudar ao próximo, mas não vejo isso como um dom, é antes uma obrigação de cada ser humano que acredita na construção de um mundo melhor.

Não, não consigo encontrar nada de tão especial em mim que possa aproximar-se de um “dom”. Quando eu frequentava uma determinada religião, as pessoas diziam que eu tinha o “dom da palavra”, mas eu nunca concordei muito, até porque, como eu já disse, as palavras saem de dentro de mim um tanto quanto afiadas, principalmente porque costumo dizer o que penso.

Admiro quem tem o dom de “acordar palavras” como diz Roseana  Murray, pois estes conseguem alcançar corações, transformar vidas, despertar adormecidos, libertar presos, enfim conseguem fazer os seres mais humanos. Mas pensando bem, acho que existe um dom que precede ao dom da palavra e sem o qual este tampouco existiria, falo do dom de amar, pois sem amor, as palavras não se transformariam em poesias, não cantariam a dor, não gritariam contra a maldade.

É!!... pensando bem, eu tenho um dom... Eu amo sem medida e é o amor que tenho dentro de mim que me inspira a continuar vivendo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

DIA MUNDIAL PELA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO

Hoje, 28 de Setembro é um Dia de luta pela descriminalização do aborto e eu não poderia ficar fora dessa luta!!!!

Educação Sexual para decidir; contraceptivos para não abortar; aborto legal para não morrer!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Estrela intocável (Érica)



Já faz alguns dias que meu coração insiste em buscar-te...

Primeiro quis encontrar teus olhos no verde claro das folhagens do jardim.

Depois quis sentir o cheiro da tua pele dourada no aroma exótico da canela.

Na noite passada buscou desvendar teu mistério na lua cheia, que poderosa dominava o céu do cerrado.

No espetáculo único de um Ipê florido sob os primeiros raios da manhã, quis vislumbrar tua beleza.

Na alegria incontida das crianças que brincavam no parque, quis rever o teu sorriso.

No som dos pássaros que se encontravam para festejar o cair da tarde, quis ouvir tua doce voz.

A razão ordena ao meu coração que te esqueça, mas tal um menino atrevido e desobediente,
 ele insiste em buscar-te,

mesmo sabendo que alcançar-te é tão impossível quanto tocar uma estrela no céu.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

Reencontrando os fantasmas (Érica)


Encontro-me na minha terra natal de onde saí com oito anos de idade e onde volto somente em raras ocasiões: velórios, aniversários, casamentos. Ocasiões em que estou sempre rodeada por muita gente e, por isso, não tenho tempo de pensar em nada. Dessa vez é diferente, vim por alguns dias, sem nada especial para fazer, então posso andar pelas ruas sem direção ou propósitos específicos. O que é interessante, quando se está acostumada a uma vida corrida e programada. O que não imaginei foi que durante essas caminhadas eu pudesse reencontrar lugares que me fizessem voltar ao tempo e relembrar coisas desses oito anos, as quais eu acreditava estarem apagadas de minha memória.

O primeiro lugar que visitei foi o bairro onde morei até os cinco anos de idade. Tive dificuldades para encontrar “minha” rua e foi inútil buscar pela casa velha de grandes janelas de madeira e mangueira no quintal. Ela não existe mais. Contudo, em minutos, vejo-me diante do velho casarão, brincando de roleman, empurrando ou sendo empurrada por outras crianças. O asfalto desaparece e vejo a larga rua avermelhada, com pequenas piscinas formadas pela chuva onde nos divertíamos felizes, mesmo sabendo que as surras seriam inevitáveis.

Do outro lado da rua, vejo o casebre de Dona Julia, cujo nome me soava como uma canção de ninar. Uma senhora de cabelos brancos, sorriso no rosto e que sempre me protegia dos severos castigos que minha mãe me impunha. Também vejo a venda de Seu Otávio, um senhor branco e barrigudo, detentor das guloseimas proibidas – diziam que eu era diabética – e da pitangueira de frutos avermelhados com os quais ele agraciava-me, compensando a falta dos doces.

Continuo caminhando e chego ao lago da cidade, rodeado por uma pista de caminhada, uma pequena praia, alguns quiosques e muita gente. Mas a lembrança que tenho é do corregozinho, em cujas águas banhávamos escondidos e sobre o qual existia uma estreita ponte de madeira, que servia de passagem entre o bairro onde vivíamos e a casa de minha avó. Pontezinha que marcou minha vida, por ter sido o lugar onde pela primeira vez senti a presença da morte, quando minha mãe tomada de fúria, por pouco não me lançou córrego abaixo, sendo eu “salva” por minha madrinha, que na ocasião também curou as feridas do meu corpo.

Também visito o bairro onde passei a viver depois da partida de minha mãe. A casa onde habitava com minha avó, tias e primos, deu lugar a um sobrado que abriga uma fármacia e outros comércios. A igreja, a qual eu costumava frequentar, continua do outro lado da rua. Moderna, já não guarda na torre o auto-falante que aos domingos me despertava anunciando o início da escola bíblica.

O lugar está diferente, mas consigo reorganizar o espaço imaginário e vejo o pequeno alpendre com pilares detrás dos quais nos escondíamos expondo caretas, com velas acesas, feitas dos mamões verdes que tinham em abundância no quintal da casa, os quais também serviam, muitas vezes, como o único acompanhamento para o arroz branco. Vislumbro a imagem de minha querida avó, fazendo sabão, pensando no que ia servir de almoço para os netos, preocupada com a tia “possuída” que vivia presa no pequeno corredor. Fecho os olhos e vejo a roda de crianças brincando de passar anel em frente à casa assombrada da esquina.

O barulho dos carros me chama de volta à realidade e, sem querer, meus olhos se detêm sobre uma casa da rua ao lado. É a casa de minha melhor amiga, meu primeiro amor, com a qual troquei as primeiras carícias. Lembro-me dos olhos castanhos, dos cabelos lisos escorrendo pela face, do sorriso infantil mostrando a troca de dentes. Tais lembranças me causam um arrepio e me dou conta de como éramos precoces. A curiosidade me instiga e caminho em direção àquela casa. Reconheço que ali ainda habita sua família, quero tocar a campainha, perguntar por ela, mas me falta coragem. Imagino-a então, não sei por que, com marido e filhos, vivendo a vida que outrora vivera sua mãe. Será que ela ainda se lembra se mim? Como saber...

Quis rever minha escola, caminho em direção a ela, acompanhada por uma menina de cabelos cacheados e dourados, de pasta marrom nas costas, pedalando sua caloi. O caminho, outrora tão longo se fez curto. A escola grande, com seu pátio enorme que servia para as corridas no saco ou ovo na colher, não passa hoje de uma minúscula escola, com um pequeno pátio cimentado cercado por um muro alto de portão pequeno trancado com cadeado. Parada em frente a esse portão busco as lembranças desse lugar, mas elas são escassas. Não me lembro da professora, acho que ela não foi boa ou má o suficiente para me marcar. Recordo-me somente que sentava na primeira carteira da última fila, perto da parede de onde ouvia os colegas chamando-me de ‘quatro olho’.

Continuo caminhando pela cidade e tenho, às vezes, a impressão de reconhecer alguns rostos; ouço sons e sinto cheiros que me parecem familiares. Em alguns lugares, encontro aquela menina de outros versos, correndo, colocando barquinhos de papel na enxurrada ou brincando de roda. Mas se olho bem, a cidade mudou e as pessoas também. Algumas se foram, deixando lembranças e saudades, outras ficaram para sempre no esquecimento. Eu cresci, sobrevivi, mudei e perdi a inocência, porém percebo que a menina triste, que reencontrei nos lugares por onde andei, sempre me acompanhará e que é ela quem me faz capaz de amar e perdoar

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Selinho

Recebi este lindo selo do blog Tudo que preciso.
Agradeço de coração o reconhecimento. Muito obrigada Glau

Regras:

1- Você poderá postar o selinho no seu blog, para que todos que passarem por lá vejam o quanto seu blog é show.
2- Indicar 5 blogs que você acha que é um show.
3- Notificar ao blog.

 Minhas indicações:

http://meninos-cor-de-rosa.blogspot.com/
http://naparededoquarto.blogspot.com/

http://lugarzito.blogspot.com/

http://lerdetudo.blogspot.com/

http://thepastimeloveme.blogspot.com/

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desencontros (Érica)

Na vida temos encontros e desencontros...
mas o que fazer quando durante o encontro os desencontros se impõem?
Você insiste em ignorar meu olhar
Que lhe implora um pouco de atenção

Você insiste em calar meu desejo
Que continua gritando com paixão

Você vai destruindo meus sonhos
Que eu teimo alimentar em vão

Você vai matando o amor
Que eu lhe tenho no coração.

sábado, 16 de julho de 2011

Em busca da Felicidade

Outro dia visitei um blog muito bonito " Em busca da Felicidade " cujo título inspirou-me a escrever esse post.

http://fabrineceo6.blogspot.com/


Desde criança quando me perguntavam qual era o meu maior sonho, eu sempre respondia: “Ser feliz”. Sempre sonhei e continuo sonhando em ser feliz. Não há nada que eu tenha buscado mais, em toda minha vida, que a felicidade.

Nesse exato momento estou a perguntar-me: “Felicidade existe? Se ela existe porque não a encontrei ainda? Ou será que a encontrei e não me dei conta?” Essas indagações me inquietam e me fazem buscar em minha memória algo que vislumbre o que eu concebo como felicidade. E o que eu encontro nesse baú de lembranças, nesse emaranhado de experiências que a vida me proporcionou? Vamos ver...

Volto aos cinco, seis, sete, oito anos... o que vejo? Uma menina triste, calada, retraída, maltratada, abusada... uma menina que desperta no meio da noite e se encontra sozinha em casa, na companhia de outras duas irmãs menores que ela... uma menina que sobe no pé de manga e aí passa o dia para não ser espancada, uma menina de joelhos sobre pedrinhas debaixo de um sol escaldante durante horas, uma menina que serve de objeto para o desejo perverso de um adulto...

No meio de todas essas lembranças não consigo vislumbrar a felicidade, acho até mesmo que ela, se existe passou longe, muito longe de mim naquela época... Mas insisto com o passado, tento driblar essas lembranças ruins e encontro outra menina que agora sorri quando joga bola na rua, solta pipa, anda de bicicleta, vai à escola, abraça seu pai que chega das longas viagens a trabalho, deita no colo de sua avó... Será que nesses momentos eu fui feliz?

Continuo vasculhando o baú de minha vida e encontro uma adolescente tímida, mas contestadora, que adora estudar, ir à igreja, cantar, sonhar acordada e namorar... uma adolescente que teve que sair de casa aos 14 anos, se virar, ser adulta antes do tempo; uma adolescente que de repente se viu apaixonada por sua melhor amiga e que por esse motivo teve que enfrentar o preconceito e contestar suas próprias crenças e convicções... Fui feliz nesse período, apesar de todo sofrimento?

O baú continua aberto e me vejo aos dezenove estudando e trabalhando como louca para sobreviver; aos vinte e dois anos, terminando a faculdade; aos vinte e cinco deixando para trás minha família para ir em busca de outros sonhos, em outro país; aos vinte e nove regressando para recomeçar.... Fui feliz nesses momentos? Sou feliz hoje, depois de ter vivido tudo o que vivi? Não sei, não sei se fui feliz. Não sei se sou feliz, mas acho que não.

Creio que ao desejar tanto a felicidade, eu idealizei um tipo de felicidade que não existe. Alguém me disse certa vez que a felicidade não É algo contínuo, que ninguém é feliz, que estamos ou não estamos felizes. É só uma questão de estado. Se isso for verdade, preciso convencer-me a parar de sonhar em ser feliz. Mais que isso, devo convencer-me de que apesar de todo sofrimento que a vida me destinou, eu já estive feliz e, em determinados momentos, até extremamente feliz...

Fui feliz no meu primeiro dia de escola, quando aprendi a andar de bicicleta, quando dei meu primeiro beijo, quando me apaixonei pela primeira vez... fui feliz quando nasceram meus sobrinhos e minha sobrinha, quando passeava à margem de La Seine ou nas pequenas ruas de Paris... fui feliz durante a leitura de livros que me marcaram, ao ouvir meus cantores preferidos, diante das telas de grandes artistas. Fui feliz quando ensinei outros a enxergarem a vida de outra forma e a perceberem que o mundo era deles também, quando fiz pessoas sorrirem ou chorarem com minhas histórias, quando abracei minha família depois de anos de ausência... Enfim,  fui feliz, extremamente feliz nos braços de todas as mulheres que eu amei, independente se elas me amaram... Ainda essa semana a vida me agraciou com momentos inesquecíveis durante os quais eu fui infinitamente feliz...

Contudo, continuo e continuarei sempre em busca da felicidade, talvez não de uma felicidade milagrosa e duradoura, mas de pequenos momentos felizes que como raios de sol brilhem e iluminem a minha vida, afastando a escuridão e a tristeza...

Érica

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A espera (Érica)

Escrevi esse poema há algum tempo, mas ele expressa hoje tudo o que estou sentindo...


 Salvador DALÌ
 Ma femme nue regardant son corps

Queria sentir o teu cheiro
Queria perder-me entre teus seios
Queria beijar teu corpo inteiro
Queria encontrar-te em devaneios

Sentir teu alento e respiração
Sugar dos teus lábios a essência da vida
Dedicar-te toda minha inspiração
Protelando em desespero a despedida

Queria adormecer em teus abraços
No enlaço de teus braços despertar queria
Vazia minha cama está porém
Esperando que regresses...e não vens!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Indignação diante do veto presidencial ao material educativo de combate à homofobia no Brasil



CARTA ABERTA DO SER-TÃO

NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM GÊNERO E SEXUALIDADE

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

 
Em fins de 2010, divulgamos o relatório da pesquisa “Políticas públicas para a população LGBT no Brasil: um mapeamento crítico preliminar”, disponível em www.sertao.ufg.br. Dentre outros resultados, o relatório apontava para uma triste constatação no que diz respeito à cidadania e aos direitos humanos da população LGBT: nunca se avançou tanto e o que se tem hoje é praticamente nada. O relatório também sinalizava que as políticas públicas para este segmento ainda eram muito frágeis e pouco institucionalizadas, tendo em vista a) a ausência de respaldo jurídico que assegurasse sua existência como políticas de Estado, livres das incertezas decorrentes das mudanças na conjuntura política, da homofobia institucional e das pressões de grupos religiosos fundamentalistas; b) as dificuldades de implantação de modelo de gestão que viabilizasse a atuação conjunta, transversal e intersetorial, de órgãos dos governos federal, estaduais e municipais, contando com a parceria de grupos organizados da sociedade civil; c) a carência de previsão orçamentária específica, materializada no Plano Plurianual (PPA), na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e na Lei Orçamentária Anual (LOA); e d) o reduzido número de servidores públicos especializados, integrantes do quadro permanente de técnicos dos governos, responsáveis por sua formulação, implementação, monitoramento e avaliação.



Em 2008, foi realizada a 1ª Conferência Nacional LGBT, em Brasília, convocada por decreto presidencial, que contou com a participação de representantes dos poderes públicos e da sociedade civil, oriundos de todos os 26 estados do país e do Distrito Federal. A partir das resoluções aprovadas nesta Conferência, foi produzido o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos LGBT, lançado em 2009. Uma das ações contempladas neste Plano era “criar um projeto de cooperação público-governamental de extensão nas escolas públicas, utilizando produções artístico-culturais com temática de sexualidade, diversidade sexual e identidade de gênero, com recorte de raça e etnia, como forma de educar para a cidadania e inclusão” (Ação 1.2.2). Por outro lado, no Documento Final da Conferência Nacional de Educação, realizada em 2010, consta, entre as inúmeras propostas aprovadas na plenária final relativas à população LGBT, a seguinte: “Garantir que o MEC assegure, por meio de criação de rubrica financeira, os recursos necessários para a implementação do Projeto Escola sem Homofobia em toda a rede de ensino e das políticas públicas de educação, presentes no Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, lançado em maio de 2009” (p. 145, grifamos).



Qual não foi nossa surpresa, então, quando em 25 de maio de 2011 a presidente Dilma Roussef decidiu vetar a divulgação dos materiais que estavam sendo produzidos no contexto do referido Projeto Escola sem Homofobia, após um encontro com parlamentares conservadores vinculados a grupos religiosos. Para expressar nossa indignação diante das graves implicações decorrentes da decisão insensata de nossa presidente, nós, pesquisadoras e pesquisadores do Ser-Tão, resolvemos divulgar a presente carta. É imperativo que seja garantida a laicidade do Estado e a cidadania de todos os grupos discriminados, como solenemente destacado nos votos dos dez ministros do Supremo Tribunal Federal que, em 5 de maio, reconheceram, por unanimidade, a igualdade jurídica em direitos e obrigações entre casais de pessoas do mesmo sexo e de sexos diferentes.



Não é demais lembrar que a produção acadêmica brasileira e internacional demonstra amplamente, há décadas, que o processo sócio-cultural de produção e reprodução das desigualdades étnicas, raciais, etárias, de classe, de gênero, de sexualidade, sem mencionar as desigualdades regionais, passa pela tentativa de sua naturalização. Uma série de preconceitos a respeito da diversidade sexual, de relações de gênero e étnico-raciais, dentre outros, está fundada em ideologias que buscam justificar desigualdades sócio-culturais baseando-se em supostas diferenças biológicas, orgânicas, inatas. É preciso que se combatam os discursos daqueles e daquelas que, reivindicando de maneira totalitária uma suposta liberdade para a expressão pública de preconceitos, nada mais fazem do que tentar impedir que o debate público em torno do combate à homofobia e garantia dos direitos humanos de pessoas LGBT seja realizado de maneira produtiva e sensata.



Enquanto as políticas públicas no Brasil não forem formuladas e implementadas respeitando-se a laicidade do Estado, continuarão a ser inócuas, crônicas de mortes anunciadas, pois, como disseram muitos sujeitos da pesquisa mencionada no início desta carta, “papel aceita tudo”. Um dos lemas do nascente Movimento LGBT (então chamado de Movimento Homossexual) no Brasil do final dos anos 1970 era “mais amor e mais tesão”. Parafraseando, sugerimos uma nova palavra de ordem, para evitar um retrocesso de décadas na luta pela garantia dos direitos humanos da população LGBT no Brasil: “pela laicidade e mais ação!”. Jamais renunciemos, porém, ao amor e ao tesão.

Fonte: http://www.sertao.ufg.br/

kit anti-homofobia" - Carta da Rede Feminista de Saúde à Presidente da República Dilma Rousseff

Exma Sra. Presidente da República Dilma Rousseff


Nós a elegemos com a esperança de que o Brasil sinalize ao mundo de que uma mulher com trajetória pessoal e política comprometida com a democracia pode ser decisiva para avançar em todos os campos da justiça social, entre elas da justiça de gênero. Neste sentido, nos produz grande frustração o recuo deste governo em relação a importantes temas, entre os quais sobre o kit elaborado para debater o tema da Homofobia.

Sabemos que nosso país, apesar dos importantes avanços, mantém elevados índices de aceitação de manifestações sexistas, racistas, homofóbicas, que ainda é capaz de humilhar, machucar e matar pessoas por sua condição de idade, crianças e velhos, que é capaz de justificar até mesmo assassinatos de pessoas que optam por outras orientações sexuais que não se enquadrem na heteronormatividade. Na sua campanha eleitoral, a senhora mesma foi vítima de uma campanha caluniosa, na qual se utilizaram de todos os recursos possíveis para estigmatizá-la e torná-la "inadequada" para presidir o nosso país.

Neste sentido, desejamos apelar para sua sensibilidade e consciência, lembrando-a do que talvez seja desnecessário – o Brasil é signatário de inúmeros compromissos internacionais – mantendo o debate sobre os temas que envolvem a sexualidade, sendo este um terreno de difícil manejo, devendo portanto ser pautado pela democracia e pelo estado laico.

Ficamos na expectativa de retomada de outros temas da agenda contemporânea por seu governo, pois queremos ver o Brasil avançando na garantia dos direitos sexuais e direitos reprodutivos como direitos humanos.

Atenciosamente,

Telia Negrão, Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos

Karen Borges, Campanha por uma Convenção Internamericana dos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos

Fonte: http://www.geledes.org.br/generos-em-noticias/recuo-em-nome-do-conservadorismo-03/06/2011.html

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Polícia descobre "fábrica de bebês" na Nigéria e liberta 32 garotas grávidas




Ilustração de Cristina Sampaio
http://www.cristinasampaio.com/

A polícia nigeriana descobriu uma casa, na cidade de Aba, onde garotas adolescentes eram forçadas a ter bebês que eram vendidos ou usados para outros propósitos, segundo o jornal inglês "The Telegraph".

Os policiais encontraram e libertaram 32 garotas, entre 15 e 17 anos, que estavam grávidas e prendeu o proprietário do imóvel. As adolescentes afirmaram que eram obrigadas a vender os bebês por cerca de 30.000 nairas (R$ 300), dependendo do sexo da criança.

Os traficantes, então, revendiam os bebês por até 1 milhão de nairas (R$ 10.200), de acordo com a agência estatal de combate ao tráfico humano na Nigéria.

Se for condenado, o dono da "fábrica de bebês" poderá pegar uma pena de até 14 anos de prisão.

Casos de abuso de criança e tráfico humano são cada vez mais comuns no oeste africano. Muitas crianças são vendidas para serem usadas como mão-de-obra barata em plantações, minas, fábricas e nos afazeres domésticos. Outras acabam na prostituição e há ainda as que são mortas ou torturadas em rituais de magia negra.

Na Nigéria, o tráfico humano é o terceiro crime mais comum, atrás das fraudes econômicas e do tráfico de drogas, de acordo com a Unesco.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/

terça-feira, 24 de maio de 2011

Que engrenagem social está por trás dos feminicídios de adolescentes?


No ano de 2010 foram registrados 153 feminicídios no Ceará, entres esses 16 foram de adolescentes de 13 a 17 anos. Do final de 2010 até maio de 2011, alguns casos envolvendo o assassinato de garotas chocaram o país. Alguns deles:

·Novembro 2010, Salvador: Janaína Brito Conceição, de 16 anos, e Gabriela Alves Nunes, de 13, foram estupradas e mortas por três homens adultos.

· Março 2011, Cunha SP: as irmãs Josely Oliveira e Juliana Oliveira, de 16 e 17 anos foram assassinadas a tiros em Cunha por um homem adulto conhecido da família que tinha interesse por uma delas, suspeita-se do envolvimento de sua namorada no crime.

· Abril 2011, Cassilândia, MS: Adrieli Camacho Almeida, de 16 anos, foi morta a facadas por um adolescente, também de 16 anos, irmão de sua namorada, um feminicídio homofóbico.

· Maio 2011, Santana da Parnaíba: Elaine Gomes da Cruz e Raizza Tavares, ambas de 13 anos, assassinadas por dois adolescentes de 15 anos cada, colegas de colégio, um deles namorado de Elaine.

O que está indicando esses feminicídios juvenis? Possivelmente a configuração de novas engrenagens de subordinação das mulheres como reação aos avanços e às desconstruções das modalidades tradicionais da dominação masculina. Novas modalidades de relações de dominação e de violência masculina, estruturadas num contexto de generalização de uma sensibilidade contrária à violência de gênero contra as mulheres e de avanço do reconhecimento dos direitos das mulheres, o que parece ser uma contradição. Chama a atenção a persistência de associação de homens, sejam amigos, sejam contratados, para a realização dos crimes. Não podemos deixar despercebido o fato dessas jovens estarem sendo assassinadas em duplas, de amigas, de irmãs, ou outras que surjam.

A formação dessas novas modalidades de dominação e violência de gênero é impulsionada por um contexto social minado por uma cultura de violência, de intolerância, de individualismo e também de impunidade. Somando a tudo isso uma nova configuração de infância e de adolescência marcada pela incorporação desses grupos no mundo adulto. Se a infância moderna foi construída como idílica, pura, ingênua, vivendo num mundo de fantasia, a infância pós - moderna está imersa no mundo do mercado, das mídias vivenciando as mesmas experiências que os adultos, mas sem amadurecimento biológico, emocional e afetivo para o discernimento e a escolha de valores e de experiências.

A morte violenta, a interrupção da vida da mulher, nesse contexto paradoxal, emerge como a possibilidade mais fácil e complacente de eliminar conflitos e antagonismos entre homens e mulheres? O surpreendente é esse padrão de comportamento e sentimento masculino estar presente em adolescentes e jovens, grupo social que até então apresentava mais abertura para mudanças e para a constituição de valores e atitudes igualitárias.

Observamos dois fenômenos. O aumento do número de meninas e adolescentes assassinadas em contextos engendrados, e o aumento de adolescentes feminicidas, assassinos de mulheres. Estão ocorrendo casos em que adolescentes são assassinadas em situações de envolvimento amoroso em meio a rupturas e conflitos com os parceiros, e também em situações de violência sexual, em que são vítimas de crime sexual.

A ativação precoce demais dos estímulos sexuais de adolescentes e crianças estimula a experimentar as experiências sexuais mais precoces (como fatos naturais que os fazem sentir-se 'como os grandes' = adultos), quando psicologicamente não estão preparados para enfrentar e resolver os desentendimentos, as maluquices e desorganizações das relações humanas. Combinando-se essa precocidade com uma cultura de violência disseminada na sociedade e apresentada na mídia de modo espetacularizado em que assassinos de crimes de todo tipo parecem celebridades (caso Bruno – Elisa e tantos outros). Essa combinação desencadeia a 'novidade' no adolescente: ele reage à moda espetacularizada, dando uma de macho (porque foi isso que ele aprendeu!) e mata. O assassino das amigas Elaine e Raizza estava sorrindo diante do assédio da imprensa ao ser preso!

Em alguns casos ocorridos em 2010, o feminicídio de jovens tinha relação com vingança e queima de arquivo pelo fato das vítimas saberem demais sobre crimes e trafico de drogas, mas o crime traz violência sexual, como estupro, nudez, mutilação e até carbonização do corpo, indicando intensa crueldade e ódio. Isso mostra o envolvimento de gente sempre mais nova com o mundo das drogas e do crime, que antes se constituía como universo masculino e cada vez mais tem envolvido mulheres, inclusivas as mais jovens.

O enfrentamento à violência de gênero contra a mulher no Brasil tem um percurso de quase 36 anos, se tomarmos como referência inicial a mobilização de grupos de mulheres, quando do assassinato de Ângela Diniz, em 30/12/1976, para denunciar a violência de homens contra mulheres em envolvimentos amorosos. Desse tempo até os dias atuais passou-se das denúncias para a reivindicação de políticas de atendimento às mulheres em situação de violência, bem como de combate a essa violência contra a mulher, até chegarmos a uma lei que se centra na garantia de direitos da mulher a uma vida sem violência – a Lei Maria da Penha.

As políticas públicas de combate à violência de gênero contra mulheres trançam um percurso da repressão/suspensão do crime, centrando-se no agressor –boletim de ocorrência, intimação, acordo ou penas de cestas básicas- para uma a criminalização dessa violência, aproximando-se de uma justiça reparativa que deve também oferecer às mulheres violentadas as condições para a garantia e restauração de seus direitos violados, além de punir o criminoso.

Mas, as engrenagens que estruturam na cultura a subordinação feminina e a violência contra as mulheres parecem dispor raízes mais profundas do que imaginávamos. É na formação da subjetividade dos sujeitos sociais que se pode compreender a sujeição e a dominação como elementos de constituição desses sujeitos. A persistência e a continuação de homens dominadores e violentos devem ser buscadas não apenas na história individual de cada sujeito, mas, sobretudo, no estado, na sociedade, cujos discursos e práticas interpelam o masculino como dominação e controle e o feminino como sujeição e dependência. Que fatores, valores alimentam esse tipo de interpelação de ser homem macho e controlador e ser mulher subordinada e dependente? Começar ações de prevenção, com disciplinas escolares sobre direitos humanos e relações de gênero, desde o maternal até o nível superior pode ser uma ação positiva de política pública, para firmar valores de reconhecimento, diversidade, direitos humanos e cidadania, pode ser o nosso próximo passo. Não é fazer uma aula, uma palestra ou oficina, mas criar um conteúdo de aprendizado para uma nova forma de ser homem e de ser mulher com base numa vivência de cidadania plena.

Maria Dolores de Brito Mota - Socióloga, Profª da UFC, Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Idade e Família, NEGIF







fonte: ADITAL

quinta-feira, 19 de maio de 2011

18 de Maio DIA NACIONAL DE COMBATE AO ABUSO E À EXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

O campus de Luziânia do Instituto Federal de Goiás (IFG), em parceria com Centro Popular da Mulher de Goiás, promoveu nesta quarta-feira, 18 de maio, palestras para alunos e professores da Escola Municipal Dilma Roriz Medeiros (escola de aplicação da UEG) em conscientização ao Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual contra Crianças e Adolescentes.





Voltada a um público-alvo de 5 a 14 anos, a professora do campus, Letícia Érica Ribeiro, orientou as crianças sobre como se prevenir do abuso sexual, o que fazer caso sofram e a quem recorrer. “Os professores são as pessoas mais indicadas para fazer essa atuação de prevenção com as crianças. O educador pode mudar a vida de uma pessoa por meio da conscientização”, comentou Letícia.


Cerca de 160 crianças participaram da atividade que os interagiu por meio de estórias e música. “Eu aprendi que um adulto não pode tocar no meu corpo. E que se alguma coisa acontecer, eu tenho que contar para minha mãe”, afirmou a aluna Iara Nunes da Silva, 10 anos.

Papel do educador

Outro foco foi dado aos professores da escola municipal. A psicóloga do campus, Lígia Cavalcante, deu orientações de como identificar alunos que sofrem abuso sexual, como abordá-los e quais os procedimentos a serem encaminhados. “Abuso sexual não é apenas o ato sexual em si, também é caracterizado por gestos e palavras. A criança precisa ser respeitada e tem direito à sua integridade física”, disse a psicóloga.

Para a supervisora da escola, Cecília Silva de Amorim, é fundamental que os docentes tenham noções de como agir em relação ao abuso sexual contra crianças e adolescentes. “Os professores lidam diretamente com os alunos, por isso é importante ter conhecimento sobre o assunto, saber como tratar em sala de aula para não causar transtornos e quais as providências devemos tomar caso percebamos alguma coisa”.



Fonte: http://www.luziania.ifg.edu.br/index.php/component/content/article/342-ifg-no-combate-ao-abuso-sexual-contra-criancas-e-adolescentes

terça-feira, 17 de maio de 2011

Marcha multitudinaria en La Habana por el orgullo gay y lésbico, y contra la homofobia


Jornada contra la Homofobia en La Habana.
Foto: REUTERS/Enrique De La Osa




Cuba seguirá cambiando pese a lo que diga o haga Estados Unidos, dijo Mariela Castro, presidenta del Centro Nacional de Educación Sexual en la Isla, que el sábado encabezó una marcha contra la homofobia en la isla.


“Sabemos que nada va a cambiar (en la postura de Estados Unidos hacia Cuba), nosotros vamos a seguir cambiando, ellos no”, dijo a periodistas, mientras marchaban por una céntrica calle de La Habana.

La sexóloga Mariela Castro ha presidido por años el Centro Nacional de Educación Sexual, cuyos avances en derechos incluyen operaciones gratuitas de cambio de sexo desde 2008.

“Estamos participando en esta jornada para visibilizar la necesidad de eliminar la homofobia como forma de violencia, como forma de discriminación”, sostuvo Castro, entre aplausos de unos 200 homosexuales que mostraban carteles en que se leía “La homosexualidad no es un peligro, la homofobia, sí”.

Como parte de la jornada contra la homofobia están previstas charlas educativas, exhibiciones de filmes y exámenes rápidos de VIH.

Jornada contra la Homofobia en La Habana.
Foto: REUTERS/Enrique De La Osa

“Esto es lo más grande que nos puede estar pasando hoy, hemos avanzado mucho y cada día tenemos más esperanzas, vamos a seguir tomando las calles porque son de nosotros también”, dijo a Reuters Wendy Iriepa, transexual operada como parte del plan de cirugías gratuitas de cambio de sexo en la isla.


Jornada contra la Homofobia en La Habana. Foto: REUTERS/Enrique De La Osa

 
Vista de un cartel hoy, sábado 14 de mayo de 2011, durante una marcha contra la homofobia por una céntrica avenida de La Habana (Cuba), donde portaron banderas del arcoiris e imágenes de Fidel Castro, al demandar respeto por los derechos de la comunidad gay de la isla. La caminata, que partió de un céntrico punto del paseo del Malecón habanero y se extendió por un tramo de unos 500 metros, estuvo encabezada por Mariela Castro, directora del Centro Nacional de Educación Sexual (Cenesex) e hija del presidente cubano, Raúl Castro. EFE/Alejandro Ernesto

Un grupo de personas participo sábado 14 de mayo de 2011, en una marcha contra la homofobia por una céntrica avenida de La Habana (Cuba), portando banderas del arcoiris e imágenes de Fidel Castro, al demandar respeto por los derechos de la comunidad gay de la isla. La caminata, que partió de un céntrico punto del paseo del Malecón habanero y se extendió por un tramo de unos 500 metros, estuvo encabezada por Mariela Castro, directora del Centro Nacional de Educación Sexual (Cenesex). EFE/Alejandro Ernesto

Mariela Castro, directora del Centro Nacional de Educación Sexual (Cenesex), pronuncia un discurso, sábado 14 de mayo de 2011, tras participar en una marcha contra la homofobia por una céntrica avenida de La Habana (Cuba), en la que se demanda respeto por los derechos de la comunidad gay de la isla. La caminata partió de un céntrico punto del paseo del Malecón habanero y se extendió por un tramo de unos 500 metros. EFE/Alejandro Ernesto

(Con información y fotos de Reuters)

Fonte: http://www.cubajutia.com/noticias/cuba-marcha-contra-la-homofobia

2ª Marcha Nacional Contra a Homofobia e pela aprovação do PLC 122.


 

No mês em que se comemora o Dia Mundial de Combate à Homofobia uma série de atividades Marcam a luta por igualdade de direitos e políticas públicas Convocada para o dia 18 de maio na cidade de Brasília a 2ª Marcha Nacional Contra a Homofobia promete colorir a Esplanada dos Ministérios. A concentração começa às 9hs e trará como bandeira de luta a igualdade de direitos e políticas públicas de combate à homofobia.

Durante a programação será realizado o VIII Seminário LGBT no Congresso Nacional no dia 17 de maio, em homenagem ao Dia Mundial de Combate à Homofobia. A data oficializada em 1990, marca a retirada, pela Organização Mundial de Saúde, da homossexualidade da classificação internacional de doenças.

A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) responsável pela Marcha reuniu, em sua 1ª edição, 3 mil ativistas e pessoas aliadas das 237 ONGs filiadas à entidade
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MANIFESTO DA II MARCHA NACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA PELA APROVAÇÃO IMEDIATA DO PLC 122



“Nada é mais forte que uma ideia cujo tempo chegou”. Vitor Hugo


Igualdade de direitos. Fim da discriminação. Fim da violência. Cidadania plena. Reconhecimento. Respeito. Essas são as nossas reivindicações. Somos milhões de brasileiras e brasileiros, ainda excluídos da democracia e sem seus direitos garantidos pelas leis do país.

Exigimos a aprovação imediata do PLC 122 que punirá na forma da Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero no âmbito nacional. Exigimos também Leis Estaduais e Municipais de proteção pessoas LGBT contra a discriminação, coerção e violência sofrida por nossa população.

Somos lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), de todos os cantos do país, de todas as profissões, de todos os credos, de todas as raças, de todos os sotaques, de todas as opiniões, de todas as etnias, de todos os gostos e culturas. Mas temos algo em comum. Não usufruímos nossos direitos pelo simples fato de termos orientações sexuais ou identidades de gênero diferentes da norma sexual dominante. Somos milhões de cidadãos/ãs de “segunda classe” em nosso Brasil.

Faz 22 anos que o Brasil se democratizou e promulgou a “Constituição Cidadã”. Entretanto, em todo esse período, nossa jovem democracia não foi capaz de incorporar a população LGBT. Até hoje não existe sequer uma lei que assegure nossos direitos civis. Não existem leis que nos protejam da violência homofóbica.

A homofobia não é um problema que afeta apenas a população LGBT. Ela diz respeito também ao tipo de sociedade que queremos construir. O Brasil só será um país democrático de fato se incorporar todas as pessoas à cidadania plena, sem nenhum tipo de discriminação. O reconhecimento e o respeito à diversidade e à pluralidade constituem um fundamento da democracia. Enquanto nosso país continuar negando direitos e discriminando lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais não teremos construído uma democracia digna desse nome.

Por essa razão é que a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais - ABGLT, convoca e coordenará todos os/as ativistas de suas 237 ONGs afiliadas e pessoas e organizações aliadas à II MARCHA NACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA PELA APROVAÇÃO IMEDIATA DO PLC 122, a ser realizada na cidade de Brasília, em 18 de maio de 2011, com concentração às 9h, na Esplanada dos Ministérios, em frente à Catedral Metropolitana.

O dia 17 de maio é comemorado como o dia internacional contra a homofobia (ódio, agressão, violência, discriminação e até morte de LGBT). A data marca uma vitória histórica do Movimento LGBT internacional. Foi quando a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade do Código Internacional de Doenças. O Decreto Presidencial de 04 de junho de 2010 incluiu o Dia Nacional de Combate à Homofobia no calendário oficial federal.

Vamos a Brasília, novamente, para denunciar a homofobia, o racismo, o machismo e a desigualdade social. Temos assistido nos últimos meses ao recrudescimento da violência homofóbica em todas as Unidades da Federação. Chama a atenção o fato de que muitos dos agressores não pertencem a grupos de extermínio e envolvidos em crimes de ódio, mas são jovens de classe média, o que demonstra como a homofobia está amplamente difundida em toda a sociedade.

O Brasil é um país plural e diverso, que respeita todos os credos e religiões, contudo nosso Estado é laico – separamos a religião da esfera pública, isso está garantido constitucionalmente. O movimento LGBT defende a mais ampla liberdade religiosa. Respeitamos todos os credos e opiniões, mas, entendemos que crenças religiosas pertencem à esfera privada - individual ou comunitária. Religião é uma escolha, a cidadania não! A Cidadania é um direito fundamental!

Não aceitamos que argumentos de religiosos homofóbicos sejam usados como justificativas para o preconceito e negação de direitos aos LGBT. É preciso assegurar a laicidade do Estado e garantir o respeito à diversidade.

A II Marcha Nacional Contra a Homofobia é, portanto, um grito, um protesto, uma exigência para a aprovação imediata ao PLC 122, um manifesto de respeito aos direitos individuais e coletivos.

Queremos igualdade de direitos e políticas públicas de combate à homofobia. Reivindicamos que o Estado brasileiro, de conjunto (ou seja, os três poderes), e em todas as esferas da federação (União, Estado e Municípios) incorporem a diretriz de combater a homofobia e promover a cidadania plena para a população LGBT.
Reivindicamos que:
  • o Congresso Nacional aprove a criminalização da homofobia (PLC 122), a união estável / casamento civil; a alteração do prenome das pessoas transexuais, o reconhecimento do nome social das travestis;
  • o Estado laico seja assegurado, sem interferência de religiosos homofóbicos;
  • o Governo Federal acelere a implementação do Plano Nacional de Promoção dos Direitos Humanos e Cidadania de LGBT, garantindo recursos orçamentários e o necessário controle social na sua execução, promovendo a diminuição da homofobia;
  • todos os governos estaduais e municipais instituam : coordenadorias LGBT, Conselhos LGBT e Planos de Combate à Homofobia;
  • o Judiciário, em todos os níveis, faça valer a igualdade plena entre todas as pessoas, independente de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero;
  • o Superior Tribunal de Justiça reconheça como entidades familiares as uniões entre pessoas do mesmo sexo;
  • o Supremo Tribunal Federal julgue favoravelmente às Ações que pleiteiam a união estável / casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e o direito das pessoas transexuais alterarem seu prenome;
  • as instituições nacionais ou locais de saúde pública estabeleçam ou fortaleçam regulamentações que retirem dos sistemas de saúde público ou privado as pessoas que pratiquem ou promovam práticas de cura da homossexualidade;
  • os governos municipais, estaduais e federal acelerem a implementação dos Planos Nacionais de Enfrentamento da AIDS para gays e outros HSH, Travestis, Lésbicas e Transexuais, garantindo recursos orçamentários e o necessário controle social na sua execução, promovendo a diminuição da infecção do HIV em nossa comunidade;
  • sejam tomadas medidas concretas pelas autoridades competentes para diminuir os casos de assassinato e violência contra as pessoas LGBT.
Março de 2011

ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais

17 de Maio, Dia Internacional de Combate à Homofobia

Entre 1948 e 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a homossexualidade como um transtorno mental. Em 17 de maio de 1990, a assembléia geral da OMS aprovou a retirada do código 302.0 (Homossexualidade) da Classificação Internacional de Doenças, declarando que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. A nova classificação entrou em vigor entre os países-membro das Nações Unidas em 1993. Com isso, marcou-se o fim de um ciclo de 2000 anos em que a cultura judaico-cristã encarou a homossexualidade primeiro como pecado, depois como crime e, por último, como doença.

Apesar deste reconhecimento da homossexualidade como mais uma manifestação da diversidade sexual, as lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) ainda sofrem cotidianamente as conseqüências da homofobia, que pode ser definida como o medo, a aversão, ou o ódio irracional aos homossexuais: pessoas que têm atração afetiva e sexual para pessoas do mesmo sexo.

A homofobia se manifesta de diversas maneiras, e em sua forma mais grave resulta em ações de violência verbal e física, podendo levar até o assassinato de LGBT. Nestes casos, a fobia, essa sim, é uma doença, que pode até ser involuntária e impossível de controlar, em reação à atração, consciente ou inconsciente, por uma pessoa do mesmo sexo. Ao matar a pessoa LGBT, a pessoa que tem essa fobia procura “matar” a sua própria homossexualidade. A homofobia também é responsável pelo preconceito e pela discriminação contra pessoas LGBT, por exemplo no local de trabalho, na escola, na igreja, na rua, no posto de saúde e na falta de políticas públicas afirmativas que contemplem LGBT. Infelizmente, também, os valores homofóbicos presentes em nossa cultura podem resultar em um fenômeno chamado homofobia internalizada, através da qual as próprias pessoas LGBT podem não gostar de si pelo fato de serem homossexuais, devido a toda a carga negativa que aprenderam e assimilaram a respeito.

Para tanto, o Dia 17 de Maio, além de relembrar que a homossexualidade não é doença, tem uma característica de protesto e de denúncia. No mundo inteiro, há um número crescente de atividades sendo realizadas neste dia.