sexta-feira, 22 de julho de 2011

Reencontrando os fantasmas (Érica)


Encontro-me na minha terra natal de onde saí com oito anos de idade e onde volto somente em raras ocasiões: velórios, aniversários, casamentos. Ocasiões em que estou sempre rodeada por muita gente e, por isso, não tenho tempo de pensar em nada. Dessa vez é diferente, vim por alguns dias, sem nada especial para fazer, então posso andar pelas ruas sem direção ou propósitos específicos. O que é interessante, quando se está acostumada a uma vida corrida e programada. O que não imaginei foi que durante essas caminhadas eu pudesse reencontrar lugares que me fizessem voltar ao tempo e relembrar coisas desses oito anos, as quais eu acreditava estarem apagadas de minha memória.

O primeiro lugar que visitei foi o bairro onde morei até os cinco anos de idade. Tive dificuldades para encontrar “minha” rua e foi inútil buscar pela casa velha de grandes janelas de madeira e mangueira no quintal. Ela não existe mais. Contudo, em minutos, vejo-me diante do velho casarão, brincando de roleman, empurrando ou sendo empurrada por outras crianças. O asfalto desaparece e vejo a larga rua avermelhada, com pequenas piscinas formadas pela chuva onde nos divertíamos felizes, mesmo sabendo que as surras seriam inevitáveis.

Do outro lado da rua, vejo o casebre de Dona Julia, cujo nome me soava como uma canção de ninar. Uma senhora de cabelos brancos, sorriso no rosto e que sempre me protegia dos severos castigos que minha mãe me impunha. Também vejo a venda de Seu Otávio, um senhor branco e barrigudo, detentor das guloseimas proibidas – diziam que eu era diabética – e da pitangueira de frutos avermelhados com os quais ele agraciava-me, compensando a falta dos doces.

Continuo caminhando e chego ao lago da cidade, rodeado por uma pista de caminhada, uma pequena praia, alguns quiosques e muita gente. Mas a lembrança que tenho é do corregozinho, em cujas águas banhávamos escondidos e sobre o qual existia uma estreita ponte de madeira, que servia de passagem entre o bairro onde vivíamos e a casa de minha avó. Pontezinha que marcou minha vida, por ter sido o lugar onde pela primeira vez senti a presença da morte, quando minha mãe tomada de fúria, por pouco não me lançou córrego abaixo, sendo eu “salva” por minha madrinha, que na ocasião também curou as feridas do meu corpo.

Também visito o bairro onde passei a viver depois da partida de minha mãe. A casa onde habitava com minha avó, tias e primos, deu lugar a um sobrado que abriga uma fármacia e outros comércios. A igreja, a qual eu costumava frequentar, continua do outro lado da rua. Moderna, já não guarda na torre o auto-falante que aos domingos me despertava anunciando o início da escola bíblica.

O lugar está diferente, mas consigo reorganizar o espaço imaginário e vejo o pequeno alpendre com pilares detrás dos quais nos escondíamos expondo caretas, com velas acesas, feitas dos mamões verdes que tinham em abundância no quintal da casa, os quais também serviam, muitas vezes, como o único acompanhamento para o arroz branco. Vislumbro a imagem de minha querida avó, fazendo sabão, pensando no que ia servir de almoço para os netos, preocupada com a tia “possuída” que vivia presa no pequeno corredor. Fecho os olhos e vejo a roda de crianças brincando de passar anel em frente à casa assombrada da esquina.

O barulho dos carros me chama de volta à realidade e, sem querer, meus olhos se detêm sobre uma casa da rua ao lado. É a casa de minha melhor amiga, meu primeiro amor, com a qual troquei as primeiras carícias. Lembro-me dos olhos castanhos, dos cabelos lisos escorrendo pela face, do sorriso infantil mostrando a troca de dentes. Tais lembranças me causam um arrepio e me dou conta de como éramos precoces. A curiosidade me instiga e caminho em direção àquela casa. Reconheço que ali ainda habita sua família, quero tocar a campainha, perguntar por ela, mas me falta coragem. Imagino-a então, não sei por que, com marido e filhos, vivendo a vida que outrora vivera sua mãe. Será que ela ainda se lembra se mim? Como saber...

Quis rever minha escola, caminho em direção a ela, acompanhada por uma menina de cabelos cacheados e dourados, de pasta marrom nas costas, pedalando sua caloi. O caminho, outrora tão longo se fez curto. A escola grande, com seu pátio enorme que servia para as corridas no saco ou ovo na colher, não passa hoje de uma minúscula escola, com um pequeno pátio cimentado cercado por um muro alto de portão pequeno trancado com cadeado. Parada em frente a esse portão busco as lembranças desse lugar, mas elas são escassas. Não me lembro da professora, acho que ela não foi boa ou má o suficiente para me marcar. Recordo-me somente que sentava na primeira carteira da última fila, perto da parede de onde ouvia os colegas chamando-me de ‘quatro olho’.

Continuo caminhando pela cidade e tenho, às vezes, a impressão de reconhecer alguns rostos; ouço sons e sinto cheiros que me parecem familiares. Em alguns lugares, encontro aquela menina de outros versos, correndo, colocando barquinhos de papel na enxurrada ou brincando de roda. Mas se olho bem, a cidade mudou e as pessoas também. Algumas se foram, deixando lembranças e saudades, outras ficaram para sempre no esquecimento. Eu cresci, sobrevivi, mudei e perdi a inocência, porém percebo que a menina triste, que reencontrei nos lugares por onde andei, sempre me acompanhará e que é ela quem me faz capaz de amar e perdoar

20 comentários:

Maggie disse...

amei o post, principalmente porque me identifiquei muito. Amei o blog... seguindo! :))

http://muffinsechocolate.blogspot.com/

Sayuri Suguino disse...

Amei amei amei o post! Parabéns pelo blog!

http://mmmorango.blogspot.com
Curta o Blog Mmmorango no Facebook! :)

Alek Silva. disse...

Meu Blog esta com um design novo, ainda estou terminando uns detalhes básicos.
Mais por favor, passe lá e de a sua sincera opinião.

Obrigado;*
http://www.theatrevidos.blogspot.com

Bidubidu disse...

Olá adorei seu Blog, e já me tornei seguidor.
me siga também
http://bidubidu.blogspot.com/
e seu comentário no Blog é muito importante para nós. visite o nosso site também
www.bidubidu.com.br

Obrigada e Sucesso

Myla disse...

ao ler parece que estamos nas suas lembranças... muy bueno!

Aline Thompson disse...

Seguindo.
Se puder retribui seguindo
meu diário virtual
http://odiariothompson.blogspot.com

...beijinhos***

RejaneFerreira disse...

Olá!
Vim agradecer a visita e comentário no meu blog.. Obrigada de coração! =)
Sinta-se a vontade para voltar quando quiser.

Beijos e mto sucesso sempre!

Marcus Alencar disse...

Voltar ao lugar origem é sempre benefico pra gente, sabe, porque o passado está sempre vivo em algum canto da nossa memória onde lá ele parece um tempo presente que nunca acaba, mas que precisa ser acessado através de alguma referência. A rua em que nasceu, os vizinhos, amigos ou amigas de infância, todos em maior ou menor grau marcam nossa vida e, de certo modo, nos ensinam algo importante para o nosso caminho.

Blog UaiMeu! disse...

Voltar as origens.. aprendizado!

passa lá

http://uaimeu10.blogspot.com/

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

INTERESSANTE O SEU TEXTO, E SUAS DESCOBERTAS DE INFÂNCIA. SEMPRE É BOM VOLTAR NOS LUGARES POR ONDE PASSAMOS E RELEMBRAR UM POUCO O PASSADO. ISSO DÁ LIVRO.



http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/07/vampira-e-o-anjo.html

Ila Gabriela disse...

haa Flor eu sei como vc se sentiu é maravilhoso saber q apesar das mudanças nós somos nos mesmo unicos e com a nossa estoria ecritar por nós mesmo. bju
visita o http://paradaobrigatoriacmc.blogspot.com/

Paulão Fardadão Cheio de Bala disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Lara Paiva disse...

Recordar é viver. De vez em quanto, eu consigo lembrar de coisas que nunca pensaria se eu conseguisse lembrar. Fico questionando como estão as crianças que eram meus colegas de escola e algo do tipo. Muito bom o post, passe no meu blog depois.

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

GOSTO DE IR NOS LUGARES ONDE PASSEI. É ÓTIMO RELEMBRAR.

TEM UM TEXTO LEGAL NO MEU BLOG. DEPOIS PASSA LÁ.


http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/07/o-grito.html

Viviane Camacho disse...

Oi , Obrigado por visitar meu blog. tambem adorei o seu vou segui-lo.
Duvida: Em que cidade vc vive e onde e sua terra natal?

bjss,
vivica.

Net Esportes disse...

excelente narrativa, é sempre bom voltar para o lugar onde crescemos !!

Sabrina Lobelle disse...

estou seguindo você, gostei do blog.
se puder ler o meu espero que goste e siga-me *-*

http://sabrinaapenasumaaprendiz.blogspot.com/

Vanessa disse...

meio tenso ne mas ainda sim interessante voltar ao inicio desejo de muita gente.

France Câmara disse...

muito legal, adorei! (: http://apaixonadasporcosmeticos.blogspot.com

Fabiane Daz disse...

Esses momentos, apesar de as vezes serem um tanto tristes como você mesma disse, são gostosos de se viver! Abraço