quarta-feira, 2 de maio de 2018

Paris e as quatro estações


Era inverno quando eu ali cheguei por primeira vez, há mais ou menos 15 anos. Tudo era novo, surpreendente, encantador e assustador ao mesmo tempo. Eu nunca tinha saído da minha terra, nunca tinha ido tão longe. A timidez, o medo, o frio, a língua que eu não dominava e a saudade eram os meus principais obstáculos.



Não demorou muito para que ela entrasse dentro de mim e ocupasse todos os espaços. Linda, imponente, exuberante, iluminada, diversa. Eu me apaixonei perdidamente por seus monumentos e museus,  suas praças e jardins, por suas ruas estreitas e seus grandes bulevares, por La Seine com seus bateaux mouches e seus aconchegantes Quais, pela fiel Tour Eiffel e os acolhedores marchés com seus cheiros variados de frutas maduras, peixes frescos e flores.

Com a primavera ela se tornou mais bela ainda, com os prunus cerasifera dominando os jardins do Trocadéro, o Champs de Mars ou a lateral da Notre-Dame, já no final de fevereiro; as magnólias enfeitando  o Palais Rayal, o Hotel de Ville e o Jardin du Luxembourg, no mês de março. E o que dizer dos prunus serrulata  por todos os lados no mês de abril? Me lembro especialmente do Jardin des Plantes, da Cité Universitaire e do Parc Montsouris, que eu visitava com frequência. De maio até final de junho eram os Glycines lilases quem vestiam de cor e aromas o 13ème, onde eu morava e o 14ème, onde eu estudava.

O verão chegou mostrando toda sua luz e calor com a Festa da Música no solstício de verão. No dia 21 de junho, todas as ruas, praças, metrôs se encheram de música e vida, em especial a Butte aux Cailles, "meu" bairro, com seus  bares, cafés e restaurantes. Os dias que se seguiram foram cheios de vida, com os jardins repletos de pessoas deitadas nas gramas, crianças correndo, piquenique au bord de la Seine.

E quando eu menos espero, começo a ver as folhas das árvores amarelarem e serem importadas pelo vento fresco do outono. As flores vão dando lugar a árvores de folhas amareladas e marrons que aos poucos vão cobrindo as calçadas e os jardins. O clima é ameno, suave, gostoso, aconchegante e inspirador! Descobri que o outono era, das quatro estações,  a mais linda e a minha preferida.

Na verdade, foi ela - Paris -  quem me fez conhecer e desfrutar, pela primeira vez, das estações do ano, que no Brasil, passavam desapercebidas.  Foi ela também quem me inspirou e me deu coragem para viver intensamente tudo o que o meu coração desejou viver. Nela eu tive experiências encantadoras, vivências enriquecedoras,  paixões ardentes e amores surpreendentes.  Nela, eu aprendi que as oportunidades são únicas e que eu tinha que vivê-las sem medo e sem reservas; que a vida é muito curta para viver de mentiras. Ela me mostrou que a felicidade só existe quando se tem liberdade para ser quem você realmente é. Nela eu descobri uma vida que eu nunca tinha sequer sonhado.


Precisei deixá-la, não sem uma dor forte na alma, mas a deixei com a certeza de que ela jamais me deixaria. Voltei ao Brasil diferente, transformada, mais forte, mais corajosa, mais determinada, mais consciente e, sobretudo, disposta a ser eu mesma, independente do que os outros falariam. O que ela me ensinou eu jamais esqueci e as experiências que ali vivi, ainda hoje, norteiam a minha vida e minha maneira de ser.

Já regressei várias vezes a ela, depois  desta primeira experiência que durou alguns anos. Cada vez é  uma experiência nova, surpreendente e única. Acabo de passar alguns dias nela e desta vez, como em cada uma das outras, foi como reencontrar o primeiro e único grande amor de minha vida. Foi um reencontro lindo com pessoas queridas, com as cores da primavera, com os cheiros, com os ruídos, com a agitação, os costumes, os sabores, enfim, foi um reencontro comigo mesma. Desfrutei intensamente de cada segundo, como se fosse o primeiro, o único e o último e percebi que minha paixão pela Cidade Luz é verdadeira e não acaba nunca.  

Paris, je t´aime!

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