domingo, 11 de novembro de 2018

A avó-mãe da menina



A menina separava os tecidos coloridos que a avó ia cosendo. Ao som da velha máquina de costura,  a colcha de retalhos ia se formando, enquanto a mulher contava histórias.  A menina olhava a vozinha com ternura e admiração, vendo-a  conduzir o tecido em direção à agulha com a mesma coragem e serenidade com que conduzia a casa e cuidava dos netos.

Gostava da companhia daquela avó, que carregava nos  gestos a valentia e no olhar a doçura dos povos originários.  A menina  amava o tom da sua  voz rouca, da sua pele morena e cheia de rugas, de passar os dedos nas veias grossas das suas mãos delicadas e finas, do cheiro gostoso do seu abraço apertado, da maciez dos seus cabeços grisalhos, do seu sorriso alegre ao desejar "bom dia". 

Não havia no mundo ninguém a quem a menina amasse mais que a avó-mãe.  Ela era sua inspiração, seu exemplo, seu esteio, seu sustento; era a mulher mais forte  e corajosa que a menina conhecia, mas também a  mais sensível e amorosa.  O colo da avó  era o único lugar onde a menina adormecia tranquila, pois sabia que ela  a protegeria de toda maldade humana. Com a avó, a menina aprendeu que para viver é preciso ter  força para lutar, coragem  para recomeçar e  amor para espalhar.

Quando a avó partiu para o lado de lá, a menina se perdeu num mundo de tristeza,  uma tristeza que a acompanhou nas estradas da vida  por onde andou.  Hoje, apesar de buscar forças no exemplo da avó-mãe, a menina-mulher  tem dificuldade de se encontrar  e, todas as noites, pede que a avó venha lhe abraçar e que não demore a levar para a margem de lá, a menina que ficou do lado de cá.

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